Poema en español:

El paso de las horas
No sé sentir, no sé ser humano,
no sé convivir, a causa de mi alma triste,
con los hombres, mis hermanos en la tierra.
No sé ser útil, aunque siento que soy práctico,
cotidiano, nítido.
Yo vi de todo y me he maravillado.
Pero todo ha sido demasiado, o demasiado poco, no lo sé muy bien,
y sufrí.
Yo viví todas las emociones, todos los pensamientos,
todos los gestos.
Y me quedé triste como si hubiese querido
vivirlos pero no lo consiguiese.
Amé y odié como todo el mundo.
Pero para todo el mundo fue normal
e instintivo.
Para mí siempre fue la excepción, el choque,
la válvula, el espasmo.
No sé muy bien si la vida es poca o demasiada.
No estoy seguro si siento de más o de menos.
Sea como fuere, la vida, por lo interesante
que suele ser a todas horas, llega a dolerte,
a marearte, a cortarte, a rozarte, a crujirte,
te incita a saltar, a quedarte en el suelo,
a salirte de todas las casas,
de toda lógica, de todas las terrazas,
para ser salvaje entre árboles y olvido.

Poema em português

Passagem das Horas
Não sei sentir, não sei ser humano,
não sei conviver de dentro da alma triste,
com os homens,meus irmãos na terra.
Não sei ser útil, mesmo sentindo ser prático,
cotidiano, nítido.
Eu vi todas as coisas e maravilhei-me de tudo.
Mas tudo sobrou ou foi pouco, não sei qual,
e eu sofri.
Eu vivi todas as emoções, todos os pensamentos,
todos os gestos.
E fiquei tão triste como se tivesse querido
vivê-los e não conseguisse.
Amei e odiei como toda a gente.
Mas para toda gente isso foi normal
e instintivo.
Para mim sempre foi a exceção, o choque,
a válvula, o espasmo.
Eu não sei se a vida é pouco ou demais para mim.
Eu não sei se sinto demais ou de menos.
Seja como for a vida, de tão interessante
que é a todos os momentos, a vida chega a doer,
a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
a dar vontade de dar pulos, de ficar no chão,
de sair para fora de todas as casas,
de todas as lógicas, de todas as sacadas,
e ir ser selvagem entre árvores e esquecimentos.

Breve biografía autor:

Álvaro de Campos é mais uma das personalidades criadas pelo criativo e misterioso escritor português Fernando Pessoa. Pessoa, um dos mais importantes poetas da literatura universal, é sinônimo de heteronímia: de sua genialidade nasceram Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Bernardo Soares, heterônimos que comprovam que o poeta não cabia em si. Fernando Pessoa foi múltiplos em um só, sendo capaz de atribuir peculiaridades a cada uma de suas criações.

Não bastasse serem dotados de estilo próprio, os heterônimos de Pessoa ganharam de seu criador biografias recheadas de acontecimentos que quase nos fazem acreditar que eles de fato existiram fora do escritor. Álvaro de Campos está entre os principais transbordamentos do poeta, isso porque os versos atribuídos a ele ocorriam nos momentos em que Pessoa sentia um incontrolável impulso para escrever, daí a urgência e os versos tidos como febris.

“(…) Como escrevo em nome desses três?… Caeiro por pura e inesperada inspiração, sem saber ou sequer calcular que iria escrever. Ricardo Reis, depois de uma deliberação abstracta, que subitamente se concretiza numa ode. Campos, quando sinto um súbito impulso para escrever e não sei o quê.

(Fernando Pessoa – Carta a Adolfo Casais Monteiro, 13 de janeiro de 1935)

Conforme biografia criada por Fernando Pessoa, Álvaro de Campos nasceu em Tavira, Portugal, no dia 15 de outubro de 1890. Considerado como um alter ego de Fernando Pessoa, Campos talvez seja sua personalidade literária mais elaborada, cuja escrita pode ser dividida em três diferentes fases: Decadentista, Futurista e Intimista.

4 comentarios sobre “Poesía recitada: Passagem das Horas. Autor Álvaro de Campos. Recita Maria Bethânia (hermana de Caetano Veloso). Traducción literaria Aline R. Fagundes

      1. Gosto muito do teu blog e da maneira como acontece, e mais que nunca, o quanto é necessário que mais pessoas tenham acesso a esse conhecimento, a essa cultura que se espalha através de você. um grande abraço.

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